Reflexões sobre apreciação de bonsai. – por Walter Pall

Bonsai é a arte do visível. Este argumento é comumente utilizado na teoria da arte para a pintura e escultura. Aparentemente trivial este argumento é bem aceitado no Ocidente. Na Ásia se pensa o oposto: bonsai é a arte do invisível. O bonsai como peça de arte não é uma partitura aberta, mas sim como um poema de quatro linhas, onde a quarta linha está faltando. Bonsai não é a arte do visível, é a arte de fazer visível, durante o processo de visualizar algo acontece dentro do espectador, o qual vê algo que não está lá.

Do ponto de vista do designer, bonsai é a arte de fazer visível algo que não estava lá previamente, que pertence ao desconhecido e não pode ser entendido com nosso intelecto. O intelecto pode auxiliar em refletir a respeito da história que a árvore está nos contando sobre a natureza. Mas o intelecto não pode nos ajudar a entender as emoções que estas histórias evocam.

O espectador fica supostamente concentrado no visível e o que ele sente, não com a técnica que o artista tenha utilizado. Isto não auxilia em compreender um bonsai, se alguém sabe muito a respeito da técnica, de seu design, ou mesmo sobre o artista. O espectador que possui certo conhecimento tem a tendência de desmontar a árvore, e imediatamente começa a criticá-la. Ele é tendencioso e não deixa a árvore tocá-lo, falar com ele. Os entusiastas do bonsai são os piores críticos. Eles pensam sobre o que teriam feito, em como poderiam melhorar a árvore, ao invés de deixá-la causar impacto sobre seus sentimentos. Eles deveriam tentar aceitar, pelo menos por um momento, o bonsai como ele é. Por esta razão julgar árvores de acordo com “critérios de julgamento” é problemático. Ao invés de deixar o bonsai causar impacto sobre os sentimentos até a alma e pontuar de acordo com este impacto, o jurado despedaça a árvore com seu intelecto. No melhor caso o trabalho pode ser julgado desta forma, e na pior das hipóteses a árvore será desqualificada justamente pelo forte impacto que geralmente é causado por fatores desconhecidos. Não é julgado o sentimento que o bonsai causa, mas como esse sentimento foi criado.

O espectador preocupado e presunçoso não vai além do tocável, portanto não consegue alcançar o artístico. Ele quer compreender onde não há nada a ser compreendido. O entendimento ocorre com a parte esquerda do cérebro, a qual, entretanto, nunca poderá compreender uma obra de arte porque este não é um processo intelectual. Para o espectador que é normalmente orgulhoso de seu conhecimento, de seu intelecto, o sentimento mais humilhante é ser tocado por algo que é intocável, incompreensível, algo que ele não consegue por em contexto com o real e o mundo compreensivo das mais comuns regras de design do bonsai. Neste caso o espectador é posto em uma posição inferior – ele rege com uma intelectual arrogância, despedaçando o bonsai e odiando-o, porque odeia sua humilhação. Isto explica porque o bonsai que não segue em conformidade as muito bem documentadas regras (japonesas) são normalmente rejeitados, mesmo quando possuem valor artístico muito maior que as árvores clichês. Isto não quer dizer, claro, que um bonsai que foge as regras é automaticamente uma obra de arte.

Schopenhauer tem dito que se deve aproximar de uma obra de arte como uma pessoa de alto nível. Isto quer dizer que devemos humildemente esperar até se aproxime para comunicação. A energia que o artista impõe sobre sua peça, o revela ao espectador que relaxa completamente e coloca sua vontade de lado. De acordo com as atuais pesquisas cerebrais, pode-se dizer que o espectador relaxado deixa seu lado esquerdo do cérebro (sua vontade) a descansar, e admira a obra de arte como ela é com seu lado direito do cérebro, sem colocar críticas em palavras automaticamente.

É assumido que neste contexto o bonsai em questão é uma obra de arte. Como distinguir a arte real do esforço amador e quem faz isto, é um assunto totalmente novo que requer uma longa explicação em outro artigo.

Para o espectador não é útil parar em frente da árvore e tentar entendê-la, fazer penetrar em sua mente. Funciona muito melhor se parar em frente da planta e deixar que ela o atinja sem preconceitos. O espectador deve, casualmente, sentir que encontrou as formas, as cores, como se ele próprio tivesse criado o bonsai.
O espectador leigo tem uma vantagem. Ele não tem o conhecimento para reflexões intelectuais. Suas conjecturas não são profundas. Ele tem menos preocupações, está mais ocupado em admirar. Como ele não pode entender com seu intelecto, ele simplesmente o deixa de lado. O espectador leigo irá perceber que o bonsai não parece muito natural, como as árvores que ele vê diariamente. Ele irá perguntar o porquê disto. Bem, elas não são imitações de árvores naturais, mas sim idealizações de árvores naturais. E isto é uma questão de gosto – mas o gosto pode mudar. Atualmente o gosto japonês domina o mundo do bonsai, mas isto pode mudar novamente. O espectador leigo é como um alien de uma estrela distante que olha uma revista de moda e faz perguntas sobre o motivo das mulheres não parecerem mulheres “de verdade”. A opinião do público geral, o senso comum, entretanto, é suspeito de ser dominado pela mediocridade. Simplesmente, o gosto leigo é normalmente vulgar.

O público leigo não pode ser tão leigo, caso contrário irá perder muito. O público leito deve ocasionalmente se transformar em um público entusiasta do bonsai. O público pode não entender por que árvores mortas são exibidas, quando árvores decíduas não apresentam folha alguma durante o inverno. O uso de muita madeira morta no bonsai é visto por muitos como um sinal de que a árvore está morta, ou irá logo morrer. Bonsai de maior tamanho são normalmente ignorados, porque não são “verdadeiros” bonsai, um bonsai de verdade é bem pequeno.

Um bonsai não é um livro aberto, com conteúdo disponível a qualquer um que olhe para ele. Ele consiste de muitas pistas escondidas, na teoria artística isto se chama “metáfora”. Quem não entende as pistas irá ver apenas uma pequena árvore em um pote. Quem não conhece a frase “luta pela sobrevivência”, terá muita dificuldade de entender um bonsai cheio de madeira morta, com uma breve veia viva, mas com folhagem exuberante. O descuidado irá perguntar por que a árvore é exibida se já está morta, ou então confessa que isto causa um sentimento doentio. Quem não aceita admirar o que é velho, coisa muito normal entre os asiáticos, irá se admirar muito mais com árvores decíduas joviais do que com velhas coníferas.

Geralmente é um mistério, para o entusiasta, por que uma pessoa fica em frente a um belo bonsai e não pensa que ele é belo. O entusiasta pensaria que a árvore é boa, e que todos deveriam ser capazes de ver isto, inclusive um leigo. Mas isto não acontece. A árvore por si própria não é bonita ou ruim, ela apenas emite sinais. O receptor deve aprender a reconhecer estes sinais, a decifrá-los e então a apreciar a árvore. Isto consume um longo tempo de educação. Apenas a interpretação de sinais leva a informação, onde alguém vê um pobre, ou um belo bonsai. A informação não está na árvore, mas sim no cérebro do espectador. “A beleza está nos olhos de quem vê”. O modo que um espectador vê um bonsai é bastante conectado com sua própria experiência de vida, ao conhecimento adquirido pelo espectador. É interessante notar que o conhecimento adquirido não é apenas na forma racional, em palavras, mas também em forma de imagem e emoção.

Muitas pessoas têm problemas com o uso “excessivo” de madeira morta na arte do bonsai. Isto se deve ao fato de não terem visto árvores suficientes com muita madeira morta. Podemos ver estas árvores na natureza, mas apenas em condições extremas, como no alto de montanhas, ou regiões áridas. Um fazendeiro das montanhas de Tyrol (região no oeste da Áustria), que nunca viu um bonsai em sua vida, vai até uma exposição, Ele não pergunta “quão velho é este bonsai?”, “quanto ele custa?”, não, ele pergunta “como pode uma árvore tão pequena ser atingida por um raio?”. Ele possui a vivência necessária para saber que qualquer árvore naquele estado foi atingida por um raio alguma vez. Ele não questiona o uso da madeira morta e suas formas extremas, devido a sua experiência de vida.

Por outro lado, podemos encontrar pessoas que sabem muito bem como uma árvore pode ficar em condições extremas, mas ainda assim são contra designs extremos em bonsai. A razão é que muitos espectadores esperam em um bonsai uma representação “ideal” de uma árvore. Sendo a árvore ideal uma árvore mediana, mas excepcionalmente bela, nunca uma extrema. Isto é muito difícil de ser aceito pelo artista que já está entediado com árvores normais, que aprendeu a ver as mais extremas como ideais. O bonsai está indo tão longe do natural ideal que está se tornando abstrato e não aceito pelo espectador leigo.

Pode-se dar o seguinte conselho para o espectador de um bonsai: Livre-se dos nomes, descrições, estilos, formas, e deixe a árvore como ela é, penetrar você (não interprete errado). Tudo que pode ser dito com palavras não tem importância para o espectador, apenas o sentimento conta agora. O espectador deveria olhar, e não ver. Olhar é a forma desarmada de ver um bonsai, sem preconceitos. O espectador é o oposto disto, ele é racional, direcionado. Pode-se dizer que o olhar acontece com o lado direito do cérebro, enquanto o “ver” acontece com o esquerdo. Quem aceita este conselho irá esquecer as regras, como o artista fez quando criou o bonsai. O bonsai será um banquete para o olhar, mas não para o intelecto.

bonsai-feio

Um carvalho californiano, foi exibido na convenção GSBF em 2003, Fresno, CA.
Esta foi a crítica de Walter Pall sobre o carvalho de Katsumi Kinoshita from Monterey, CA

“Esta é a árvore mais feia da exibição! Nossa, é muito feia! Eu ando para longe dela, mas paro e olho para trás, ela é muito feia! Indo até a árvore novamente. Como alguém ousa exibir uma árvore destas em uma exibição tão importante? Tudo está errado neste bonsai. Aliás, é um bonsai? ou apenas um pedaço de material em um pote? Olhe a conicidade invertida – terrível. Onde está o nebari? não existe. Onde está o primeiro galho? É uma atrocidade – ocorre em toda a árvore. Esta copa parece mais a de um cogumelo do que de um bonsai. Em uma escala até cem esta árvore ganha menos cinqüenta. Nossa, ela é feia! Distanciando e deixando a árvore falar por si só.
Olhando de volta e tentando ver algum detalhe se aproximando, aproximando. Olhe para isto aqui na parte de trás da copa, é um velho e enorme buraco. Uma coruja gigante deve viver nele. Olhe o tronco – é tão rugoso. Como pode esta atrocidade que é o primeiro galho ter este formato tão incomum. Onde esta árvore adquiriu estas cicatrizes enormes? Deve ser uma árvore realmente muito velha. Quando mais longe eu fico, mais velha ela parece. Este carvalho deve muito bem ter seus quinhentos anos. Que tal isso! Esta árvore está aqui desde antes dos espanhóis virem. O vigia do vale viu os nativos americanos, os espanhóis se irem, viu os russos, a corrida do ouro, viu a república da Califórnia! ele viu tudo – muito, muito mais do que nós iremos algum dia ver . O vale pertence a esta árvore. Ela é tão forte que não se importa com o que pensamos dela. Não existimos para ela.
Tenho profundo respeito por esta árvore. Começo a admira-la. Ela é tão feia! feia de uma maneira séria, de uma maneira respeitável, como uma pessoa velha. Esta árvore me impressiona profundamente.
É um bonsai? é um bom bonsai? Bem, se bonsai é trabalho e é para julgar pelo intelecto, é um bonsai terrível. Se bonsai é arte, então devemos perguntar: é arte quando toca nossa alma? Sim, é alta arte quando toca profundamente nossa alma? Sim, a arte é sobre criar algo realmente bonito? Não! Arte é sobre criar algo que toque a alma – e pode ser bem feia.
Esta árvore é tão feia que começou a se tornar bela novamente. Queremos melhorar este carvalho? Não, mas talvez possamos deixa-lo um pouco mais feio.”

Walter Pall
Traduzido para o português por João Pedro Arzivenko Gesing.

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