Reconhecendo Padrões no Julgamento de Bonsai – por Walter Pall

Você consegue diferenciar uma conífera de uma folha larga, somente olhando uma foto? Claro que consegue, qualquer criança consegue. Você consegue diferenciar mesmo quando uma conífera cresce como uma folha larga,e vice versa? Claro que consegue. Você percebe isto em um piscar de olhos sobre a imagem.

OK, agora explique como você fez essa decisão. Alguns serão bem sucedidos em dar uma boa explicação, alguns darão uma explicação pobre, e outros nem darão bola. Mas todos gastarão algum tempo tentando articular uma coisa que eles sabem em um piscar de olhos.

Mesmo que nosso cérebro saiba como  fazer esta classificação, nossa mente consciente entretanto, não é capaz de articular regras. Nosso cérebro é excepcionalmente bom neste tipo de tarefa. Somos maquinas ótimas de reconhecer padrões.

Nosso cérebro se desenvolveu para fazer exatamente isto com grande precisão. Se temos um conjunto de objetos nós podemos formular regras internas para classificá-los. Quando você aprende a ler, lhe é mostrado muito exemplos da letra “a”. Você aprende a ver a letra “a” mesmo se for escrita a mão, ou datilografada. Você pode dizer a letra “a” imediatamente mesmo que escrita com uma caligrafia péssima ou impressa em algum lugar incomum. Você pode fazer isto mesmo que nunca tenha visto esta “fonte” anteriormente. Mas seria bastante difícil se você fosse tentar explicar como chegou nesta conclusão a cada vez.

Você é muito bom em decidir instantaneamente que uma letra não é a “a”. Portanto, deve existir um mecanismo que possibilita a você fazer a leitura do texto em uma velocidade enorme.

Conhecimento de algo abstrato é ainda mais complexo. Você aprende muito cedo o que é um bom e um mau comportamento. Lhe são dados muitos exemplos quando criança. Quando você cresce seu cérebro cataloga muitos exemplos de o que é bom ou mau comportamento, em algum ponto descobre regras e como se decidir. Quando você é posto em uma situação nova em sua vida, na qual você nunca esteve antes, você pode instantaneamente aplicar as regras. Portanto, todos temos regras internas, mas elas variam dependendo de como foram desenvolvidas. Desta forma nós temos uma noção diferente sobre moral. Estas diferenças se tornam marcantes quando conhecemos uma pessoa que cresceu em uma cultura completamente diferente e que aparentemente aplica regras radicalmente diferentes a respeito da distinção de “bom” e “ruim”.

Então, o que isto tudo tem a ver com bonsai? Bem, ocorre exatamente o mesmo quando aprendemos a apreciar um bonsai. Nós aprendemos que uma árvore que segue as regras, as quais são escritas na pedra, são boas. Quando ela quebra uma destas regras, ela se torna ruim. Nós aprendemos que as árvores desenhadas por Naka, Kimura, qualquer grande mestre japonês, são boas. Não nos contentamos com o que nos é simplesmente dito. Aprendemos a procurar padrões nas árvores que vemos. Nós aprendemos a ver “boas” aplicações das regras bem como aplicações “ruins”. Nós aprendemos a ver similaridades em árvores que são “boas” e criamos internamente nossas próprias regras de como decidir. Então podemos julgar uma árvore que nunca vimos antes. Podemos dizer de longe quando vemos um pedaço de material bruto ou uma obra de mestre. Não somos igualmente bons nisto. Alguns podem ir bastante longe e se tornar bons julgadores de bonsai. Tenha em mente que não existe nada escrito aqui sobre a palavra CRIAR bonsai. É tudo questão de julgar o que vemos. Neste conceito uma pessoa pode se tornar um especialista em julgar bonsai sem nunca ter encostado em uma árvore.

A questão agora é, em que extensão estamos verdadeiramente julgando o mérito de um bonsai, e em que extensão estamos somente utilizando nossa habilidade de reconhecimento de padrões.

Sim, alguns bonsai tem a habilidade de nos comover emocionalmente, de passar uma mensagem, de nos fazer ver sua “alma”. Mas como saber se esta resposta não é simplesmente uma reação aprendida? Apreciação de bonsai requer treinamento. Não é, geralmente, o caso de alguém que sem treinamento poderia distinguir um bonsai “bom” de um “ruim”. Não é possível que o que chamamos de treinamento artístico seja essencialmente treinamento para classificar padrões?

Um passo adiante agora. Eu treinei a mim mesmo para apreciar bonsai contemporâneos, vendo muitos deles, se meu cérebro é bom neste tipo de coisa, então eu devo formular regras para descobrir o que eu considero bonsai “bons” e distingui-los dos “ruins”. Quando vou até uma exposição e vejo o trabalho de um novo artista, eu vou aplicar minhas regras de “bom” e “ruim” e fazer meu julgamento se este artista é de alguma forma bom. Desde que a maioria de nós é treinado pelos mesmo livros e por exeplos similares de bonsai “bons” ou “ruins”, nossa opinião será parecida com a de outros bonsaistas, e o novo artista será rotulado de acordo com isto.

Da mesma forma isto se aplica com os artistas de bonsai. Se eu decidir me tornar um mestre de bonsai, eu vou julgar meu próprio trabalho bom as mesmas regras de “bom” e “ruim” e produzir bonsai que transpareçam meus próprios critérios de julgamento. Portanto, uma vez que alguns trabalhos se estabilizam como exemplos da boa arte, fica praticamente garantido que este padrão será perpetuado pelos futuros artistas e críticos. Isto vai tão longe que um número considerável de entusiastas e artistas acreditam que existe apenas um caminho para fazer um “bom” bonsai. Existe uma forte tendência ao fundamentalismo, isto é inerente ao sistema que envolve o gosto pelo bonsai.

Agora, na apreciação do bonsai existe, é claro, mais de um padrão de reconhecimento, mas existe alguma maneira, de algum dia separar os dois? Normalmente não existe um observador de fora do sistema, e nunca poderemos saber em que extensão nossas preferências são baseadas no conhecimento de padrões, do qual recebemos treinamento no passado. Mas você lembra o exemplo acima quando “sabemos” exatamente o que é moralmente bom ou ruim e que uma pessoa de outra cultura pode ter um código completamente diferente de moral? Esta questão é sobre quando escutamos uma pessoa que vem de outra cultura do bonsai. Se escutarmos, vamos entender o que ele está falando? Provavelmente não, e provavelmente vamos querer rebater com nosso código muito bem definido sobre o mundo do bonsai ao invés de questionarmos continuamente o que estamos pensando. Não percebemos que o que estamos pensando sobre regras “naturais” somente se desenvolveram acidentalmente, e se tornaram um código amplamente aceito. Mas por pura coincidência poderia ter sido um código completamente diferente.

Não poderíamos trazer a uma exposição de bonsai uma pessoa da rua que nunca foi exposta a qualquer teoria sobre bonsai? Claro, poderíamos, mas o que esperar? A pessoa faria alguns julgamentos e daria algumas explicações, mas ela não irá nos dizer muito mais do que teria dito uma pessoa bem leiga e sem histórico em nossa frente. A arte não deixa de ser uma forma de linguagem, sem ficar na chuva para se molhar, ninguém pode aprender a ler esta linguagem.

Uma historia fala sobre uma pessoa que se aproxima de Picasso e lhe fala “Senhor Picasso, eu não entendo sua arte”. Picasso responde, “você sabe chinês?”. “Não”. “mas Chinês pode ser aprendido”.

Como saberemos algum dia a verdadeira diferença entre elitismo perpetuado pelo reconhecimento de padrões e o valor intrínseco de um bonsai?

Adaptado de: “Art and Elitism: A Form of Pattern Recognition” by
Kunal Sen, 2007, Encyclopedia Britannica blog
Walter Pall
Traduzido para o Português por João Pedro Arzivenko Gesing

Carlos Tramujas me disse uma vez que, para ser um juiz de Bonsai você não precisa, necessariamente, ser um excelente bonsaísta. Mas, deve conhecer todas as regras.
E eu completo: até para poder saber quando determinada regra não deve ser aplicada!  (Comentário feito por Elio Novack).

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